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Blogaridades

À Bolina Pela Vida... Irónico contra os ventos surumbáticos, sério contra os ventos irresponsáveis, iconoclástico contra os ventos dogmáticos, e politicamente incorrecto sejam quais forem os ventos...

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OUÇA A RÁDIO, VIVA A RÁDIO!!!

por bolinando, em 13.02.17

Hoje é Dia Mundial da Rádio, decretado pela UNESCO há 6 anos.

É um dia festivo para mim. Acho que devo ter nascido ao som do rádio, sempre vivi com um ao lado e não imagino o mundo sem a rádio.

Algumas das minhas recordações de infância mais remotas têm o som da rádio como música de fundo.

Lembro-me, como se fosse hoje, de ouvir o relato da vitória do meu Sporting sobre o MTK na final da Taça das Taças de 1961, com a narração do saudoso Artur Agostinho.

E isso porque em minha casa havia sempre um rádio ligado, perdão, uma telefonia, velhinha, ainda de válvulas que demorava cerca de uns 2 minutos a aquecer.

A minha mãe, que nunca entrou num estádio de futebol, não perdia um relato. E apesar de também nunca ter entrado no S. Carlos, não perdia uma ópera na Emissora 2.

Tal como não perdia um "Serão para Trabalhadores", ou um "Teatro Radiofónico", onde despontavam nomes que mais tarde foram (e são) nomes de referência. Com o meu pai a trabalhar de sol a sol a rádio e o gato eram as únicas companhias permanentes da minha mãe.

 Nos anos 60 o meu pai ofereceu-lhe talvez a prenda que ela mais gostou em toda a vida, um rádio a pilhas National. Nunca mais o largou. Ainda hoje o tenho. Quando íamos de viagem no nosso primeiro carro, ainda sem auto-rádio, lá ia o portátil, encostado ao vidro da frente para aumentar o som, curva sim, curva não, lá se perdia o som da onda média, mas o importante era a companhia que fazia. E à noite, quando se deitava, a minha mãe levava o rádio ligado baixinho, e punha-o debaixo da almofada.

Eu, lá ia ouvindo tudo, absorvendo tudo, desde o que era mesmo para mim, como "As aventuras dos 5" em teatro radiofónico, ou as músicas da época, ou até os jingles comerciais...

A escolha limitava-se a 5 estações: Emissora Nacional 1, Emissora Nacional 2, Rádio Clube Português, Rádio Renascença e Emissores Associados de Lisboa.

Quando terminei a 4ª classe, o meu padrinho deu-me (supremo prazer!) um transistor pequenino. A partir daí também andou comigo para todo o lado. E à noite, imaginem, dormia com ele ligado debaixo da almofada. O meu pai, muito pragmático e menos dado a essas "radialices" dizia a brincar que tinha medo de mexer na almofada do gato porque, de certeza, teria um rádio por baixo.

E eu lá ia conhecendo, pelo som, as grandes vozes que pautavam a rádio de então: Pedro Moutinho e Maria Leonor, Artur Agostinho, Fernando Correia, Luis Filipe Costa e tantos outros.

E à medida que crescia, a rádio sempre dava som aos meus gostos (além de também os formar).

"Quando o telefone toca"... "Está, senhor Matos Maia, posso dizer a frase?", ou "Tac, Tac, Bagatelas", do Paulo Fernando, com uma rubrica que hoje faria muita falta o "Este disco é intocável mas felizmente não é inquebrável"... e, um programa que tive o privilégio de, por mero acaso, ter ouvido a primeira emissão e que ainda hoje ouço com grande prazer , o  !"1, 2, 1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz", do José Duarte. Se não for o programa de rádio há mais tempo no ar não deve andar muito longe.

Com o advento da FM, alguns programas surgiram que nunca esquecerei. Como o Em Órbita, com a voz inconfundível do Cândido Mota. Ou o Página Um.

Claro que a censura tirava liberdade à rádio, mas os seus jornalistas e locutores (termo hoje em desuso mas que gosto muito) ensinavam-nos a ler nas entrelinhas, a pensar, a ir para lá do óbvio. A rádio de então era mais do que uma simples mistura de informação (permitida) e música (autorizada). E quando não chegava, sintonizava-se a BBC. E os mais politizados sintonizavam, às escondidas, a Rádio Moscovo ou a Rádio Tirana.

Foi pela rádio que soube do golpe militar no Chile que derrubou o Presidente Allende e foi ela que nessa noite me fez chorar lágrimas de raiva e impotência.

Mas foi também ela que me fez chorar de alegria naquela manhã de Abril, quando a voz única do Carlos Albino, trouxe Zeca Afonso e Grândola e com ele a liberdade.

Foi noutro programa inesquecível, o "Limite", na Rádio Renascença, programa que estava mesmo no limite do aceitável pela Ditadura. E foi a minha mãe que ouviu, debaixo do seu travesseiro a nova da chegada da liberdade e me veio acordar para ela.

Mais tarde, quando fui dar aulas para a Guiné, indispensável na bagagem um rádio com (grande luxo) 9 bandas de onda curta, para tentar apanhar a nossa rádio, quanto mais não fosse para ouvir os relatos de futebol.  Foi por ela que sofri, em conjunto com os outros cooperantes a saga do Europeu de 1984 e a nossa eliminação frente à arrogante França do mafioso Platini (vingada o ano passado). 

Foi também pela rádio que me chegaram muitas das informações da Guerra do Golfo, e foi também pela rádio que soube notícias dos meus amigos guineenses aquando do conflito que os opôs ao ditador Nino Vieira.

E pelo caminho ficaram programas que nunca esquecerei, como o "Pão com Manteiga", a única coisa que me faria acordar a um domingo de manhã, o Café Concerto, o Oceano Pacífico... e tantos outros...

Em suma, a rádio faz parte da minha vida e da vida de muitos outros que nunca deram por isso. A rádio não se exibe, nem exige a nossa atenção permanente, como a televisão. A rádio entranha-se e constitui a banda sonora do filme da nossa vida.

Viva a rádio!

 

 

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