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OS HERÓIS DA MINHA INFÂNCIA - OS CINCO

por bolinando, em 03.01.17

Resultado de imagem para os cinco

 

Entre os heróis da minha infância não podiam faltar "Os Cinco" da irritantemente britânica Enid Blyton. 

Em miúdo devorei a colecção inteira. Eram livros ideais para as férias, para serem lidos nas tardes quentes às horas em que não se podia estar na praia.

Associo sempre estes livros a camas de rede, esticadas entre pinheiros, pois era aí que mais gostava de os ler.

Depois ia com os meus potenciais Tims, os cães da quinta de Almoçageme, recrear as aventuras.

Bem, mas ao contrário dos anteriores heróis, estes não ganharam imortalidade. Por um lado porque não passaram no teste da recriação em série de TV. Por outro lado porque fui percebendo que eram irritantemente britânicos, ou não fossem criaturas cuja criadora o era igualmente. 

Não tardou muito até ficar enjoado de chá, scones e Scotland Yards.

E as personagens centrais não resistiram à erosão do tempo e imagino-os hoje, meio século mais tarde, com percursos de vida muito pouco "heróicos" e condizentes com as respectivas idiossincrasias.

O Tim, imagino-o a morrer de velhice, posto caridosamente a dormir por um veterinário consciente, que nisto de animais os britânicos não são dos piores.

A irritante Ana, imagino-a a enveredar por uma brilhante carreira política conservadora nos Tories, como deputada no seu círculo eleitoral, carreira essa que partilha com a criação dos seus 4 filhos e a colaboração regular com uma revista do tipo "Crónica Feminina" para onde escreve receitas de scones e afins. Mais recentemente sobressaiu na campanha pelo Brexit, "para salvar o que resta do Império, desses bárbaros que bebem café em vez de chá"! É ferozmente anglicana e o toque do seu telemóvel é o "Rule Britania". Usa invariavelmente chapéus do género da rainha Isabel e da Gertrudes Tomás.

O David, sempre complexado pelas comparações que faziam entre ele e o seu brilhante "e atinadinho" irmão mais velho, muito cedo entrou numa espiral de autodestruição que começou pelo álcool e o levou até às drogas duras. A última vez que foi visto foi no bairro de Brixton a vender crack. Pelo meio teve um caso com uma freak caribenha, o que foi a gota de água que fez com que a sua irmã Ana nunca mais o quisesse ver. 

A Zé saiu do armário e assumiu a sua homossexualidade que já se adivinhava nos livros.

Chegou a dirigente do movimento lésbico local e enveredou por uma carreira de produtora de espectáculos e agente de artistas, como Beth Ditto. Representa as Pussy Riot em Londres o que lhe valeu o epíteto de "Filha do Putin".

O Julio enveredou por uma carreira na alta finança, na City. Trabalhou (e ganhou muito em negócios) com o Lehman Brothers e actualmente com a Goldman Sachs (onde supervisiona directamente um amanuense que dá pelo nome de Durão Barroso). Dos irmãos apenas se dá com a Ana, cujos cargos políticos já lhe abriram muitas portas na alta finança, e recusa-se a falar sequer dos outros dois, o drógado e a sapatona, como lhes chama (Atenção que ele chama Sapatona à Zé por esta ter levado a Londres uma exposição da Joana Vasconcelos onde sobressaia "o sapatão"). Não perde uma corrida de cavalos em Ascot nem um torneio de Wimbledon, apesar de não saber bem a diferença entre um cavalo e uma bola de ténis, mesmo após os seus pares do Gentleman's Club já lhe terem dito que a bola de ténis é a que não tem orelhas.

Entretanto o tio Alberto foi preso pelo MI5, acusado de vender segredos científicos à Coreia do Norte, apesar de sempre ter negado essa acusação e ter argumentado que eram apenas as receitas dos scones da mulher e do cordeiro cozido.

Já a tia Clara, após a prisão do marido, para sobreviver viu-se na contingência de abrir um bordel de luxo na sua mansão, que ficou célebre não pelos seus scones mas pelas suas artes de Dominatrix. 

Enfim, acabo de reparar que afinal "Os Cinco" não animaram só a minha infância, pois ainda hoje me animam... de outra maneira.

 

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