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Blogaridades

À Bolina Pela Vida... Irónico contra os ventos surumbáticos, sério contra os ventos irresponsáveis, iconoclástico contra os ventos dogmáticos, e politicamente incorrecto sejam quais forem os ventos...

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DRAMA PASSIONAL DOS SUBÚRBIOS

por bolinando, em 15.02.17

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Pedro acordou mal disposto.

O calendário sentenciava 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados.

Há muito que não ligava ao Dia dos Namorados. Sempre achou que era um estratagema dos comerciantes para, no período entre os Reis e o Carnaval, criarem artificialmente uma necessidade de o comum dos mortais comprar compulsivamente coisas para agradar ao seu ou à sua namorada, ou mulher, ou amiga colorida, ou amiga desejada… Ele também o fazia.

E para os que o mascaravam de Dia de S. Valentim, Pedro ria-se para dentro, pois tinha um colega Valentim e sabia que era tudo menos santo.

Mas muitas coisas andavam a mudar na vida de Pedro. Entre elas o namoro, de anos, com a sua São, outrora tão promissor e apaixonado e agora cada vez mais frio e distante.

Ultimamente a São não lhe respondia aos telefonemas nem aos emails tentando marcar um encontro.

E ele cada vez mais sentia que precisava dela, e cada vez a sentia mais distante.

Decidiu ligar ao pai dela, um seu amigo de longa data, já que, no fim de contas, até só a tinha conhecido por frequentar a casa dele…

Ligou-lhe, mas o seu amigo Paulo descartou-se de intervir, argumentando que ela já era "maior e vacinada", que ele até achava que o Pedro seria o partido ideal para ela mas isto, a juventude, tem ideias próprias, não gosta de aceitar conselhos e que ele próprio até percebia pouco de mulheres.

Ainda tentou o padrinho comum mas este, com uma reforma que mal dava para viver, e ocupado a escrever um livro, alegadamente antes que a memória o atraiçoasse mas, na prática, para não ter de ouvir a mulher e as suas opiniões sobre tudo e todos, disse que não se pronunciava sobre arrufos de namorados, apesar de, críptico, sentenciar que não tinha dúvidas sobre de quem era a culpa.

E Pedro sentia-se cada vez mais só. E se essa solidão era difícil de suportar no dia-a-dia, no Dia dos Namorados ainda o era mais.

Lembrou-se com nostalgia dos tempos áureos do namoro, quando tudo se encaminhava para um casamento feliz e quando Pedro vivia rodeado de amigos, todos aparentemente felizes à sombra da felicidade de Pedro.

Agora que Pedro estava em baixo os abraços rareavam, as palmadas nas costas tendiam para facadas, e a sua “bolha de conforto” estava cada vez mais “às moscas”. Mas o que lhe custava mais era a atitude da São, da sua São, daquela a quem ele tudo tinha dado e permitido, ao longo de vários anos de namoro.

E essa atitude doía ainda mais no Dia dos Namorados.

E depois havia os boatos, esse cancro que mina qualquer relação…

Os zunzuns chegavam-lhe, de que a sua São andava num verdadeiro jogo de sedução com um velho inimigo seu, um ódio de estimação que cultivava com muito amor e carinho, o António.

O simples pensamento de que tais rumores pudessem ser verdade deixavam-no doente.  Mais para se tranquilizar do que por convicção, argumentava de si para ele mesmo que a São nunca o faria. Era uma rapariga séria, de sólida formação cristã, incapaz de qualquer pecado mortal, sobretudo do adultério. Mas logo se sobressaltava ao realizar que não poderia falar de adultério pois nunca tinha havido casamento, apenas um namoro, por mais prolongado que fosse.

E ele sabia que o António não se movia pelos mesmos valores cristãos da sua São. Aliás, era público e notório que o figurão vivia assumidamente um triângulo amoroso. Era um predador! E adoraria juntar a São a esse triângulo, transformando-o num trapézio onde a sua São, pura e ingénua, actuaria sem rede.

Pedro estava desesperado.

Percebia que sem a sua São nunca conseguiria enfrentar a vida difícil que o esperava.

Mas, lá no fundo era um cabotino.

Decidiu-se por um gesto que chamasse a atenção da São. Sabia que, defensora militante da vida, São condenava veementemente o suicídio. Pois era isso mesmo que ele, Pedro, iria fazer. E deixar-lhe-ia uma nota escrita a explicar o seu desespero. E ela, boa alma e boa cristã, por certo o compreenderia, lhe perdoaria e voltaria para ele.

Não que o quisesse concretizar até às últimas consequências, nada disso. Tomaria as precauções para ser assistido antes de a situação ser irreversível. Faria um telefonema para um amigo professor, revelando-lhe o seu acto. Despachado como era esse seu amigo, por certo que conseguiria que os socorros chegassem a tempo.

Depois disso tomaria uma embalagem inteira de aspirina efervescente e escreveria a nota, com autor e destinatário, que queria que fosse descoberta junto do seu corpo inanimado:

"De Pedro Passos Coelho,

Para Assunção Cristas"

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